terça-feira, 23 de junho de 2009

O POUCO QUE SEI SOBRE A MORTE JÁ É SUFICIENTE

A morte é inaceitável. Percebo isso na busca determinada de minha mãe por explicações plausíveis no espiritismo. A morte de um jovem de 24 anos de forma tão rápida por uma doença que se manifestou num curto espaço de tempo leva todos a se questionarem, principalmente os pais.

É justamente por essa busca que nasceram as religiões e suas mais mirabolantes teorias. Detentoras de conhecimentos profundos, revelados por iluminação, as religiões procuram demonstrar fatos que comprovem suas teorias acerca da vida após a morte.

Não é de se espantar que os primeiros capítulos do Gênesis tratem justamente da introdução da morte na criação. Nas conversas com a minha mãe e suas certezas sobre a vida pós-morte, comecei a me indagar sobre o que a Bíblia realmente tem a falar sobre morte. Será que ela realmente explica e traz fatos elucidatórios a esse grande mistério que nos cerca?

Na leitura do Gênesis, algumas coisas me vêm à mente:

1. A morte não fazia parte do “plano original da criação”. Não é a toa que ela seja tão contraria ao nosso desejo por viver, ou como diz os cientistas, o nosso “instinto de sobrevivência”. Não há um trecho antes da queda afirmando que a morte tenha sido uma das criações de Deus. A morte era uma possibilidade.

2. Havia duas árvores no jardim: A da Vida e a do conhecimento do bem e do mal. Respeitando o mito, tais árvores representam as possibilidades das escolhas humanas. A primeira estava no centro do jardim, no centro do projeto divino, representando a caminhada com Deus, o crescimento relacional entre a criação e o criador, a harmonia cósmica na plena expressão da imagem e semelhança de Deus no homem. Na integridade entre criador e criatura reside a vida eterna.

3. A segunda árvore representa a autonomia humana e seu conseqüente estado paradoxal. Não quero me relacionar com Deus como criatura; não quero ser semelhança de Deus, mas igual a Ele; não quero ser uma peça dentro do projeto de Deus, mas possuir meus próprios projetos onde provavelmente Deus não fará parte. Em sua independência, o homem tornou-se um ser de contradições, incompleto, onde bem e mal habitam seu interior numa vida dividida. O homem não controla o conhecimento do que é bom ou ruim, mas o mal o controla, levando a oscilar entre momentos bons e ruins, escolhas boas e más, pensamentos puros ou não. Fugindo da “prisão de Deus” o homem tornou-se cativo de si mesmo.

4. Assim, a morte não é o castigo, mas uma libertação. A morte é o fim de uma vida de contradições, a quebra de um ciclo de inconstância e incoerência eternas. Ou seja, a morte nos humilha na nossa pretensão de autonomia, nos faz recordar que não temos realmente o controle de tudo, nos leva a ponderar sobre o imprevisível, recorda que somos limitados e carentes. Apesar da nossa liberdade, o amor de Deus interfere a nosso favor, introduzindo a morte como libertação desse cativeiro criado por nós mesmos.

Porém, não há mais nada o que falar. Não sei como é a vida do lado de lá e não conheço quem tenha ido e voltado para contar. Não sei nem mesmo se o que eu disse nas linhas anteriores seja uma explicação realmente plausível para a realidade da morte. Apenas não gosto de pensar na morte como castigo, mas como oportunidade de liberdade. Por isso a tradição cristã nos fala que a morte já começa em vida, pois quando cremos em Jesus estamos mortificando o nosso eu e suas contradições, sendo assim preparados para uma ressurreição de vida plena, de integridade, onde não haverá mais bem ou mal, pecado e obediência, doença, choro, mas somente relacionamento completo entre Deus e os homens.

Não quero explicações detalhadas sobre a morte, sobre a vida pós-morte, sobre céu ou inferno, reencarnação ou ressurreição; pois nenhuma explicação alivia a dor de se perder um ente querido. Não sigo os fatos, e sim a fé de que a morte, para os que crêem em Jesus, é o fim de um capítulo mal escrito por mim mesmo e o começo de uma nova história escrita em parceria com Deus.

Para Aquele que sempre quer andar conosco, mesmo no vale da sombra da morte.

Jorge Luiz

domingo, 21 de junho de 2009

DEUS NÃO É POP, A RELIGIÃO SIM

A reportagem de capa da revista ÉPOCA de 15/06/2009 trazia estampado na capa o titulo: DEUS É POP. Como todo tema relacionado à religião me chama a atenção, tratei logo de ler essa reportagem.

Segundo uma pesquisa publicada nessa reportagem, 95% dos jovens brasileiros entrevistados se dizem religiosos, e 65% afirmam ser profundamente religiosos. Tal “renascimento religiosos” entre os jovens também é verificado em outros países, mas não com as mesma proporções.

O que me chamou atenção não foi somente o alto percentual de jovens religiosos, mas a “incoerência” que a religiosidade brasileira ainda perpetua. Visualize esses dados:

• Destes 95%, apenas 35% seguem os preceitos de sua religião.
• Apenas 57% afirmam que as atividades religiosas são importantes.
• 26% dos jovens freqüentemente duvidam dos princípios de sua religião.

Ou seja, como é citado na reportagem, “A religião, para o jovem brasileiro, é mais declarada do que vivida”. Isso é de chamar nossa atenção. A religiosidade que não implica em compromisso foi constatada em números.

Ainda consta na reportagem que a Internet, e não as Igrejas; serve como instrumento para resolver seus problemas. Comunidades virtuais, cultos online e blogs com os mais variados e deturpados “estudos bíblicos” fazem a festa da juventude religiosa. Enfim, há uma infinidade de recursos tecnológicos que permitem os jovens viverem uma religiosidade desregulada e sem qualquer disciplina.

A espiritualidade rotativa torna-se também uma característica dessa juventude. Um jovem sente-se livre em experimentar as mais diversas expressões religiosas até encontrar aquela que “mais se adapte as suas necessidades imediatas”. Imediatismo, falta de compromisso, relativismo e a desvalorização da Igreja são as marcas que mais me chamam atenção quando pensamos em religiosidade na juventude brasileira.

Porém, cabe aqui a ressalva de que essa configuração não é exclusividade dos jovens brasileiros. Outras faixas etárias em nossa nação também demonstram as mesmas características. A frase de uma jovem católica faz eco a muitas outras vozes cada vez mais comuns: “A fé não depende da Igreja para existir”.

A história cristã, porém, mostra que só podemos falar de fé no contexto da Igreja. Ela se expressa em comunidade e se materializa no coletivo. Essa espiritualidade individualista, fenômeno marcante dos nossos tempos, onde princípios básicos são relativizados e convivência é substituída por devoção intima e pessoal, pode levar a uma completa descaracterização da fé cristã revelada pelo próprio Cristo.

Será que ainda podemos remar contra essa maré? Ficarei matutando em busca de respostas.


Jorge Luiz

quinta-feira, 11 de junho de 2009

JOÃO 9 – UM CEGO DESAFORADO DÁ AULA DE TEOLOGIA

Esse capítulo é extraordinário pelas suas “inovações”. Jesus aqui é tão heterodoxo, tão “estranho” para a nossa visão de "jesus". Gostaria que percebêssemos algumas coisas tão particulares nessa narrativa que poderão nos chamar a atenção.

Jesus caminhava com seus discípulos. Já havia entrado em fortes debates com os “ortodoxos” doutores da lei, fariseus e escribas. Nessa luta o clima pesado havia ficado no ar. No caminho estava um cego, e diferente de outros enfermos, este cego não sabia quem era Jesus e na verdade não estava “nem aí” para as notícias de que um curandeiro estava por ali, pois dificilmente alguém naquela cidade estava desinformado sobre isso.

Jesus passava por ele, e os discípulos, cheio de suas questões judaicas sobre o bem ou mal, lançam uma pergunta para Jesus: Qual o pecado que provocou esse mal? O do seus pais ou o dele mesmo?

Aí entra a primeira desconstrução da ortodoxia:

Jesus não entra em questões sobre a universalidade do mal, a ligação entre pecado e infortúnios. Ele simplesmente afirma a particularidade da vida humana quando ele diz que aquela especifica cegueira era para especificamente nele manifestar a Glória de Deus. Enquanto queremos universalizar, empacotar, sistematizar o que é mal e o que é bem, o que é conseqüência do mal e os frutos da bondade, em Jesus não há essa preocupação. Essa tendência a qual Jesus é contra não é só privilégio do pensamento judeu, mas habita todas as religiões, filosofias e metafísicas existentes.

Mas Jesus apenas fala da particularidade da vida humana. Não adianta entender a lógica do bem ou do mal, algo que está pra além de toda capacidade cognoscitiva humana. O que importa é que cada um possui sua história e dentro dela não há limitação para Deus agir. Porque digo isso? Simplesmente porque na sua individualidade, na sua deficiência, aquele cego seria um sinal de Deus.

Seguindo a narrativa, Jesus quebra mais um paradigma ortodoxo com a espécie de milagre que ele opera no cego. Ele simplesmente passa cuspe com terra nos olhos do indivíduo. Semelhante ao Barro da Criação, ele dá nova vida ao cego, simbolizada na iluminação de seus olhos. Antes de qualquer reação de repúdio ou de nojo, a simbologia desse ato deve saltar aos nossos olhos.

Ele quebra todo o escrúpulo judaico, que cuspia nos marginais e desafortunados como esse homem, e mostra que no desprezo do cuspe religioso ele dá nova vida. Isto é, a nova realidade trazida por Jesus não cabia naquele sistema. Sua nova vida é chamada por ele mesmo de “luz do mundo”, sua nova vida é Ele mesmo, pois Ele é a luz do mundo.

O homem vai e se lava no Tanque de Siloé (tanque do enviado), em mais um sinal de que Ele é o enviado que aquele tanque e aquele povo tanto esperavam. Lá o homem é curado, e volta a ver.

Seus vizinhos o vêem são e perguntam: Tu não és aquele cego de nascença que mendiga nas calcadas? Como agora está vendo? Na sua imensa tranqüilidade e paz (parece até que o homem tá adormecido, que não percebeu o que lhe aconteceu. O cara não vibra, não louva, não pula de alegria, o texto não mostra uma reação de jubilo por parte do homem curado, na verdade ele nem sabe quem lhe curou, pois ele não o viu) ele responde que foi homem chamado Jesus, fez lama (sem saber ele que foi cuspido, rsrsrsrs) e aplicou-me nos olhos, mandando em seguida que eu me lavasse no tanque de Siloé.

Nessa estranha apatia ele narra o milagre, os seus ouvintes, entusiasmados, quiseram logo saber onde esse Jesus estava. O ex-cego responde com mais descaso ainda: não sei.

Interessante a reação desse homem, ele parece não está “nem aí”; ele quer apenas viver essa nova vida, essa nova condição, sem querer explicá-la ou detalhá-la.

Quem vive com Deus uma relação que visa mais o entender, o investigar, o sistematizar e o explicar tudo, não faz de Deus o seu Senhor, mas a sua Enciclopédia do Infinito Conhecimento. Ele não quer saber, ele quer viver. Deus quer que vivamos, e muitas vezes isso implica não saber, mas sim crer.

Esse homem que não quer saber de nada, e sim de viver sua nova condição; é levado para ser interrogado por aqueles que não querem viver, mas de tudo saber. Esses são os Fariseus, detentores da ortodoxia, e por isso mesmo, são os Cegos dos Cegos.

Quem olha o mundo com visões pré-concebidas (ortodoxas) simplesmente é cego, e não percebe a luz de Deus.

Os caras questionam, o ex-cego explica, mas eles não entendem, porque o funil teológico-filosófico deles não aceita o simples fato de Deus ter curado num dia em que Ele, Deus, não podia curar.

A ortodoxia pode transformar Deus em nosso pior adversário!

O cego, que não sabe de nada, mas já vive a nova vida, apenas diz o que Jesus era pra ele: um profeta, pois essa era a maior honraria que ele conhecia para poder nomear aquele homem misterioso, que tem o impressionante talento de desestruturar os edifícios.

Para investigação ficar completa, chama-se os pais do cego para conferir o tal milagre. Para os detentores da verdade, não bastava o testemunho daqueles que conviviam, tinha que ter a assinatura dos pais. Os pais estavam trêmulos como “vara verde”, com medo dos detentores da verdade...

...Pois os detentores da verdade são impiedosos com os simples, com os ignorantes e com aqueles que apenas vivem sem nada saber.

Eles, na sua covardia, jogam a “batata quente” para o filho, que já era adulto o bastante para dar conta de si mesmo, e tudo isso pelo simples fato de que mesmo com esse sinal no próprio filho, eles não queriam abandonar a segurança da sinagoga (as asas protetoras dos que são ortodoxos).

Mas o filho, que nada saiba, e que não tava “nem aí”, não possui esse medo, pois não havia mais proteção ortodoxa nenhuma que explicasse sua nova condição. Ele volta chateado, pois está cansado daquele enfadonho e infrutífero debate acerca da verdade, do bem e do mal e sobre Deus. Ele quer apenas viver aquilo que Deus já tinha dado a ele.

Na sua chateação ele se mostra desaforado com os ortodoxos, que são a própria personalização da “verdade”.

Até porque têm “verdades” que cansam!

Ele diz: olha só, não sei se esse cara que me curou é um pecador (leia-se aqui herege, heterodoxo, e não imoral ou amoral). Só sei de mim, do que ele fez comigo, do que eu sou hoje por causa dele. Essa é a única verdade que tenho pra vocês. Já falei como tudo aconteceu e vocês querem que eu repita novamente; to achando que vocês querem se “debandar” pro lado desse homem.

Ele diz isso num tom fortemente irônico, e isso diante de “grandes autoridades”, diante dos Paladinos da sã doutrina.

Irados, os que são detentores da “verdade”, mas que não podem provar suas acusações, apenas rebatem com ofensas, chamando o pobre e ignorante cego de gentio (ou seja, não mais discípulo de Moisés). Mas bem da verdade, aquele homem nunca foi mesmo discípulo de “Moisés”, porque o “Moisés dos ortodoxos” não aceita os humildes, os enfermos, os ignorantes, e aqueles que apenas vivem na Graça de Deus.

Olha só os versículos 29 e 30, e perceba o nível de verdade e desaforo que habita no cego:

Sabemos que Deus falou a Moisés; mas este nem sabemos de onde é. Respondeu-lhes o homem: Nisto é de estranhar que vós não saibais de onde ele é, e, contudo, me abriu os olhos!

E ele continua de forma espetacular, a qual eu me dou à liberdade de parafrasear, nas partes em negrito:

Sabemos (isso graças ao que vocês nos ensinam na sinagoga) que Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende (ou seja, como podem acusar que este homem é pecador com tamanha prova!?). Desde que há mundo, jamais se ouviu que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença (principalmente um endemoninhado herege, como vocês classificam este homem). (Sendo assim) Se este homem não fosse de Deus, nada poderia ter feito (e eu não sou nem um doutor da lei, como vocês, mas tenho certeza disso, porque vi a Deus, apesar de ainda cego, na presença daquele homem. Portanto, qual é ainda a duvida de vocês?).

Pense num cego “arretado”! Jesus disse que ele era um sinal da manifestação de Deus, mas não pela simples cura da sua cegueira física. Ele era o sinal visível da nova vida de Deus, ele era o espelho da cegueira ortodoxa. Ele era o louco de Deus que confunde os sábios do mundo. Ele era nova aliança de um Deus que quer viver com o homem, e não ser um simples dado intelectual frio e imutável.

O cego é o sinal de um Deus que confunde, para que não venhamos saber, mas simplesmente crer Nele.

Por isso que o cego não queria saber de nada, porque aquilo era irracional. Não havia lógica humana que explicasse tamanha intervenção de Deus sobre um homem que nem mesmo pediu para ser curado. Aquilo era algo pra ser crido e reverenciado como simples intervenção de Deus no “curso natural das coisas”.

Mas mesmo assim, na arrogância ortodoxa, ele foi simplesmente expulso da sinagoga. Acusado de ser um pecador por crer naquilo que a instituição ortodoxa não vê.

Até mesmo na sua expulsão há um sinal de Deus. Pois Jesus, sabendo do que havia acontecido ao cego, vai ao seu encontro para trazê-lo a luz. Jesus veio para essas ovelhas perdidas.

Aqui o texto não fala nada, mas eu particularmente acredito que Jesus fez daquele homem um dos seus seguidores. Ele traz luz ao entendimento do cego. Ele vai ao encontro dele para que ele saiba em que ele tem crido desde aquele momento.

Todas as trevas são dissipadas em Cristo. Só não a do cego que não quer vê.

“Ouvindo Jesus que o tinham expulsado, encontrando-o, lhe perguntou: Crês tu no Filho do Homem? Ele respondeu e disse: Quem é, Senhor, para que eu nele creia? (ou seja, eu já creio que foi Deus que fez isso comigo, mas através de quem? Quero crer em quem fez isso comigo) E Jesus lhe disse: Já o tens visto (Tu já me viu desde que aceitou que eu te colocasse barro nos olhos e com fé fostes ao tanque que te ordenei para lavar, a partir daí tu tens me visto, muito mais do que os que nunca foram cegos), e é o que fala contigo. Então, exclamou ele: Creio, Senhor; e o adorou com o rosto em Terra”. (vs. 35-38)

Gostaria de finalizar essas minhas loucas meditações com as palavras do Mestre, pois elas resumem tudo de forma extraordinária e muito melhor do que o meu muito falar. Eis aí o misterioso sinal que significava a cegueira daquele homem:

“Então disse Jesus: Para um discernimento é que vim para este mundo: para os que não vêem, vejam, e os que vêem, tornem-se cegos. Alguns fariseus, que se achavam com ele, ouviram isso e lhe disseram: ‘Acaso também nós somos cegos?’ Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas dizeis: ‘Nós vemos!’ (somos os detentores da verdade!) Vosso pecado permanece”.(vs 39-41, Bíblia de Jerusalém)
Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça! Mas apenas ouça, e deixe a verdade te encher, do jeito que ela é: Mistério!

Glórias Te dou Senhor!


Jorge Luiz


Texto dedicado a todos os “cegos” segundo o mundo, mas lúcidos e cheios de luz segundo Cristo!

(Texto escrito em maio de 2008)